O dia em que o amor morreu!
O amor tinha nome, sobrenome e apelido. Nasceu em Goiânia, morava em Brasília, mas insistia em carregar o "r" como um mineiro. Era alto, beijava na chuva e tinha um gato chamado Bertoldo que nunca atendia pelo nome. Não sei por qual razão, a dona decidiu me apresentar o amor naquela tarde. Eu estava ocupada,assistindo Os Flinstones, mas tenho a impressão que foi o beijo da Beth e do Barney que lhe comoveu daquela maneira.
- Ele se chama Luis, com "s" de sapo, mas a pronúncia é a mesma de que se fosse com "z". Luis Pinheiro Mendes, mas só lhe chamo pelo diminutivo, Luisinho. Luisinho, Luisinho, Luisinho! Adoro esse apelido, tem um gostinho de doce de leite! Ele nasceu em Goiânia, mora em Brasília, mas vendo ele falar você tem certeza de que ele é de Minas. Não sei com quem resolveu trocar os sotaques, mas carrega o "r" que só um trem. Ele é alto, mas tão alto, que num dia desses atingiu uma nuvem e fez chover sobre a praça. Nos beijamos na chuva. Um dia você também beijará na chuva e sentirá o gosto de doce de leite, mas por enquanto, se contenha com a água na boca, porque se seu pai sonhar com você beijando na chuva... Não precisa nem ser na chuva, um beijo no queixo já deixaria seu pai uma arara! Arara não, gato. Luisinho ama gatos! Tem um chamado Bertoldo, mas de nada adiantou o nome de grã-fino, o gato só atende por "whiskas", nome da sua ração preferida.
Histórias como essa foram crescendo junto comigo. Conforme a maioridade se aproximava, observava que as histórias iam se aproximando dos finalmentes, assim como eu. Para mim, Luis com "s" Pinheiro Mendes era o nome de registro do amor e beijar na chuva era a única coisa que sabia fazer.
Um dia, choveu. Estimulada pela história história da dona, pensei: hoje é o dia em que começo a escrever a minha história de amor. Corri feito louca pela asa sul, voando para chegar até a casa de Júnior, antes que a chuva fosse embora. Acreditava que ele era o meu amor, porque nome, sobrenome e apelido ele tinha. Ao menos supunha, já que todo Júnior esconde um nome feio no armário. Era goiano, também morava em Brasília, tinha um gato que só atendia por "sabor & vida" porque tinha enjoado da "whiskas". Então, para mim ele era o cara, só faltava confirmar com o beijo na chuva, conforme me instruiu a dona. Como um raio, abri o portão da casa de Júnior, mas o inquilino veio logo trovoando que Alfredo Júnior e sua família tinham se mudado de Brasília. Naquele dia, soltei Juninho na enxurrada, porque sem beijo na chuva, Júnior não podia ser meu amor.
Depois dos vinte, o tempo aprendeu a voar e as histórias de amor começavam a tingir seu ponto final. No dia em que o amor morreu, choveu e muito. Bastou um único telefonema para arrancar uma tempestade dos olhos da dona. E dos meus também. O amor já não tinha mais nome, passou a ser só um som, pronunciado pelo coração encharcado da dona.
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